A Criação do Crítico
- Taras Bulka

- 6 de fev.
- 4 min de leitura
Para quem me conhece pessoalmente, não é segredo que gosto de comunicar. Sempre senti uma necessidade quase orgânica de escrever sobre os temas que me inquietam, que me importam e que considero relevantes para o espaço público. A escrita, para mim, nunca foi apenas um exercício intelectual, mas uma forma de intervenção cívica.
No início de 2025, descobri que era possível submeter artigos de opinião às grandes plataformas nacionais de comunicação social. Vi nisso uma oportunidade legítima de participar no debate público, de contribuir com pensamento próprio e de testar a maturidade das minhas ideias num espaço alargado.
A realidade revelou-se menos aberta do que aparentava. Numa primeira plataforma de jornalismo e notícias, as minhas propostas de artigos de opinião foram recusadas treze vezes consecutivas. Apenas um texto, centrado no Algarve, acabou por ser publicado. Não porque fosse mais ousado ou mais crítico, mas talvez por ser mais inofensivo e alinhado com um certa linha ideológica...
Perante estas recusas, procurei outras plataformas e outros espaços. Submeti textos, apresentei propostas e aguardei respostas. Em muitos casos, as propostas foram novamente rejeitadas; noutros, simplesmente ignoradas. Esta experiência revelou um padrão difícil de ignorar: o acesso ao espaço de opinião não é verdadeiramente democrático.
Rapidamente se percebe que, no atual ecossistema mediático, a voz individual tem pouco valor se não vier acompanhada de contactos, notoriedade prévia ou alinhamento ideológico. Ou se pertence a determinados círculos, ou se aceita o silêncio. E pior ainda: quando uma opinião não coincide com as linhas editoriais ou ideológicas dominantes, tende a ser desvalorizada, descartada ou invisibilizada...
Nesse percurso marcado por um grande desencontro com o espaço mediático nacional, acabei por encontrar acolhimento no Jornal do Algarve, que me deu a oportunidade de publicar a minha opinião sobre diversos temas, bem como de divulgar algumas das minhas investigações no domínio histórico e patrimonial. A esse jornal deixo um reconhecimento claro e sincero: sou-lhe profundamente grato pela abertura, confiança e respeito pelo pensamento crítico. Quanto aos restantes espaços, prefiro não tecer comentários.
Foi precisamente neste caminho, feito de frustração mas também de aprendizagem, que começou a ganhar forma a ideia de criar a minha própria plataforma. Um espaço que não fosse fechado, condicionado ou reservado a círculos restritos. Uma rede que abrisse portas a outros, permitindo a publicação de opiniões fundamentadas sem restrições de natureza política, mas naturalmente com limites éticos e legais claros, porque a liberdade exige responsabilidade e temos uma constituição e valores democráticos por respeitar.
A lógica da plataforma é simples: não é preciso ter contactos para ter voz. É preciso ter mérito. Na minha perspetiva, quando alguém tem algo relevante, sério e bem pensado a dizer, essa voz deve ser ouvida e colocada em circulação no espaço público. É dessa convicção que nasce o Crítico: não como um instrumento de imposição ideológica, mas como um lugar de confronto de ideias, plural, exigente e intelectualmente honesto.
Nessa linha de raciocínio, ao ponderar a criação de uma plataforma própria, o primeiro nome que surgiu foi Pensamento Crítico. Não por acaso, é essa a qualidade que mais valorizo nos seres humanos e que procuro, de forma consciente, cultivar e desenvolver em mim e nos outros. Entenda-se o meu ponto de vista: vivemos numa fase avançada de digitalização, marcada pelo domínio ideológico e narrativo das grandes redes de comunicação. A informação que consumimos é, cada vez mais, filtrada, hierarquizada e apresentada de acordo com interesses e enquadramentos específicos. Raramente é neutra!!! Nunca foi, mas nunca foi tão necessário ter cuidado com aquilo que lemos, absorvemos e tomamos como verdade.
A partir dessa constatação, tornou-se claro que a plataforma que eu queria criar não poderia ser apenas um espaço de opinião. Tinha de ser também uma base de orientação e de acesso a conhecimento, onde os leitores pudessem encontrar informação estruturada, reflexão fundamentada e perspetivas diversas sobre múltiplas áreas do saber, desde da História da Arte (que é uma área muito pouco valorizada mas que tem muito por oferecer) às ciências biomédicas.
Mesmo que, num primeiro momento, este espaço seja habitado apenas por mim, não deixaria de fazer sentido. Pelo menos existiria um lugar onde posso escrever sem estar sujeito às limitações, filtros, condicionamentos, as demoras em responder, ou então tirar a sensação de ser ignorado. Nasce um lugar próprio. Nasce um território de autonomia intelectual.
No final do dia, as leituras dependem sobretudo da capacidade de divulgação de quem escreve. As grandes plataformas promovem os seus círculos internos, os seus associados, os seus nomes consagrados. Perante isso, a conclusão impôs-se com clareza: mais vale seguir por conta própria do que esperar validação de estruturas que não estão verdadeiramente abertas.
Ainda nessa linha de pensamento, surgiu a ideia de chamar a plataforma Crítico. Não como provocação gratuita, mas por coerência. É isso que sou: crítico. Questiono, confronto, problematizo. Não por gosto na negação, mas porque acredito que é através da crítica que se melhora, que se ampliam perspetivas e que se abrem caminhos de desenvolvimento inesperados. A crítica é, para mim, um instrumento de crescimento individual e coletivo.
Durante algum tempo, esta ideia permaneceu apenas como isso mesmo: uma ideia. Um nome em suspenso. Até que, já mais recentemente, voltei a tentar publicar um artigo de opinião, desta vez sobre as eleições presidenciais. O resultado foi previsível: recusas sucessivas, sem diálogo, sem justificação substantiva. Se o texto fosse frágil ou irrelevante, compreenderia. Mas não era esse o caso.
É precisamente nesse ponto que o Crítico nasce. Não por impulso, mas por necessidade. Nasce de forma crítica, criticando o funcionamento fechado das redes tradicionais de comunicação, e propondo uma abordagem alternativa: mais aberta, mais plural, mais exigente intelectualmente. Uma plataforma que não tema o confronto de ideias e que não confunda pensamento crítico com desconforto ideológico.
O Crítico não surge contra alguém. Surge a favor do debate, da autonomia intelectual e da convicção de que o espaço público só se fortalece quando deixa de ter medo da crítica.
Com os melhores cumprimentos,
Taras Bulka
Diretor Fundador do Crítico
Comentários