Em quem votar quando ninguém nos representa?
- Taras Bulka

- 2 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de fev.
TARAS BULKA

Professor e Historiador,
Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se encontra atualmente a frequentar o Mestrado na mesma área. Demonstra um interesse transversal pelas áreas da política, economia, património e ensino, tendo participado ativamente em diversos projetos académicos e associativos. Exerce funções como Presidente da Rede Nacional de História da Arte e do Património e como Presidente do Núcleo de Estudantes de História da Arte e do Património da FLUL.
ARTIGO DE OPINIÃO
PRESIDENCIAS 2026
Tal como o título provocativo desta publicação sugere, a questão central que se coloca é simples, mas profundamente inquietante: em quem devemos votar quando ninguém nos representa? Importa, por isso, começar por explicar essa mesma provocação.
O contexto é claro. Caminhamos para uma segunda volta presidencial em que uma parte significativa da nação não se sente representada e refiro-me, em particular, aos eleitores do centro-direita e da direita democrática. Estes eleitores veem-se confrontados com uma escolha entre dois candidatos que não mantêm qualquer proximidade ideológica com o seu campo político.
De um lado, surge António José Seguro, candidato da esquerda; do outro, André Ventura, candidato da extrema-direita. Entre ambos, não existe uma opção que represente a direita democrática, constitucional e institucional, aquela que acredita no Estado de direito, na separação de poderes e na estabilidade do regime democrático.
É neste vazio de representação que nasce a inquietação, mas também a necessidade de reflexão: quando a identidade ideológica não encontra espelho nas opções disponíveis, que critérios devem orientar o voto?
Caros leitores, digo-vos desde já: não serão os vídeos no Instagram ou no Facebook, produzidos por militantes do Partido Socialista ou do Chega, que tentam provar que o seu candidato é “o melhor”, que devem orientar a nossa decisão. Grande parte desse conteúdo está desprovido de pensamento político sério, de reflexão ideológica ou de verdadeiro sentido democrático.
Da mesma forma, não são os TikToks de determinados deputados, nem os discursos de políticos que se auto-intitulam “líderes da direita”, que devem recolher o nosso voto. O voto é pessoal, livre e intransmissível, e não um produto de marketing político ou de propaganda emocional.
Neste contexto concreto, importa sublinhar algo essencial: somos nós, os eleitores racionais, moderados e politicamente responsáveis, que devemos assumir a difícil tarefa de escolher. Uma escolha que não é confortável, nem ideológica, mas que se faz entre dois polos extremos, já anteriormente referidos, tendo como critério fundamental a defesa da democracia, das instituições e do Estado de direito.
Compreendido o contexto em que nos encontramos, podemos então avançar para a questão essencial: como proceder? Na minha perspetiva, trata-se de uma escolha relativamente simples, embora reconheça-se que seja profundamente ingrata.
O nosso voto, o voto da direita responsável e democrática, deve ser direcionado para um candidato que não ameace a estabilidade política e económica que o país conheceu nos últimos anos, estabilidade essa em larga medida assegurada pela governação e presença do Partido Social Democrata. Deve recair sobre alguém que não tenha, de forma sistemática, colocado em causa o valor da Constituição, a separação de poderes e o papel das instituições democráticas.
Não votaremos, portanto, num candidato que, em pleno contexto eleitoral, faz uma de duas coisas, ambas igualmente graves. Ou mente deliberadamente, ao prometer que “vai bater com a mão na mesa”, impor ordem e resolver problemas estruturais da saúde, do ensino ou das pensões, quando é do conhecimento público que o Presidente da República não detém poder executivo nem legislativo; ou então declara, de forma implícita ou explícita, que não respeitará a separação de poderes nem o peso institucional da Constituição.
Este tipo de discurso não é inocente. Remete para práticas políticas perigosas, semelhantes às protagonizadas por Donald Trump, que fez reiteradamente tudo menos respeitar e valorizar as instituições criadas precisamente para preservar a democracia.
É por isso que esta escolha, ainda que desconfortável, deve ser guiada não pela afinidade ideológica, mas pela responsabilidade democrática. À luz da reflexão apresentada, torna-se evidente que o voto da direita democrática não pode recair em André Ventura.
Pelo contrário, num cenário excecional como este, esse voto deve dirigir-se a António José Seguro, não por convergência ideológica, mas por uma escolha consciente em defesa da Constituição, da separação de poderes, da estabilidade institucional e do regular funcionamento da democracia portuguesa.
Votar, neste contexto, não é um ato de conforto político; é um ato de responsabilidade cívica.
Importa esclarecer, de forma inequívoca, que esta posição não representa um endosso político permanente, nem tão-pouco uma deslocação ideológica. Continuo a identificar-me com os valores do centro-direita e da direita democrática, com especial afinidade ao espaço político que historicamente tem sido ocupado pelo PSD. As minhas convicções políticas mantêm-se intactas.
O voto aqui defendido deve ser entendido como uma decisão excecional num contexto excecional. Não resulta de convergência ideológica, mas de uma leitura responsável do momento político que o país atravessa. Trata-se de um voto de salvaguarda democrática, orientado pela defesa da Constituição, da separação de poderes e da estabilidade institucional, princípios que sempre estiveram no centro da tradição democrática do centro-direita português.
Assim sendo, a decisão final pertence, naturalmente, a cada eleitor. O que aqui se propõe não é uma orientação fechada, mas um convite à reflexão num momento em que a democracia é posta à prova. Quando os limites institucionais estão em causa, a neutralidade deixa de ser virtude e a responsabilidade democrática passa a ser um dever cívico.
Com os melhores cumprimentos,
Taras Bulka

Comentários