Remar para a inovação ou ficar à deriva?
- Alexandre Graça

- 10 de fev.
- 4 min de leitura
Economia & Inovação | Opinião
A transformação digital deixou de ser um cenário projetado para o futuro e passou a ser uma realidade que redefine cadeias de valor, modelos de negócio e perfis profissionais. No centro dessa transformação está a Inteligência Artificial, não como um conceito teórico, mas como uma infraestrutura económica capaz de separar países que avançam a toda a velocidade daqueles que continuam a contemplar o futuro como quem olha para uma vitrine de uma loja fechada.
As estimativas são claras. Um estudo encomendado pela Amazon Web Services (AWS) com a consultora Strand Partners aponta que a adoção de IA poderá desbloquear cerca de 61 mil milhões de euros na economia portuguesa até 2030 se acompanhada por investimento e qualificação adequada, um potencial que continua por realizar se não houver ação imediata Adoção da IA traz 61 mil milhões de euros à economia nacional até 2030 (APDC). Na mesma linha, projeções oficiais indicam que a inteligência artificial generativa poderá acrescentar entre 18 e 22 mil milhões de euros ao PIB nacional na próxima década, novamente um enorme impulso económico que depende da velocidade de adoção destas tecnologias IA pode aumentar PIB nacional até 22 000 ME em 10 anos (Diário de Notícias).
Não se trata de projeções marginais, trata‑se de uma transformação estrutural. Enquanto outros países estão a pilotar navios rumo à inovação, Portugal arrisca‑se a flutuar à deriva, observando o horizonte com nostalgia. Perante este enquadramento, torna‑se inevitável olhar para o papel das universidades com um grau acrescido de exigência. O ensino superior é um motor de preparação económica. No entanto, muitas instituições continuam presas a planos de estudo que cheiram a mofo, como museus académicos onde o pó cobre os manuais de programação e inovação enquanto os outros países já codificam o amanhã.
Importa sublinhar: docentes e instituições conhecem o caminho. O debate internacional sobre a integração da IA no ensino e na economia está amplamente documentado e as recomendações estratégicas multiplicam‑se. O que se observa, demasiadas vezes, é um apego obstinado à continuidade, agarrando‑se ao passado como um náufrago a um pedaço de madeira fragmentado, mesmo quando a tempestade da inovação exige barcos robustos.
A mudança no meio académico é lenta, mas há uma linha entre prudência e paralisia absoluta. Persistir em estabilidade curricular quando esta, já não serve a economia é como estacionar o carro no meio da autoestrada e reclamar que o trânsito passa rápido. O risco deixa de ser pedagógico e torna‑se económico, é o equivalente a oferecer degraus gastos quando outros países estendem escadas rolantes para o futuro.
Os dados sobre o tecido empresarial refletem esta inércia. De acordo com o estudo da AWS, cerca de 41 % das empresas portuguesas já utilizam IA nas operações, mas a adoção ainda é desigual e muitas PME enfrentam dificuldades com competências digitais, criando um fosso entre o que é necessário e o que existe .Este atraso não é acidental: nasce da formação deficiente, da falta de profissionais preparados, do talento que, educado para o futuro, foge para onde o futuro já chegou. Portugal assiste de bancada, impotente, ao desfile do progresso.
A economia contemporânea valoriza perfis híbridos: técnicos capazes de pensar, aplicar e inovar. O relatório 2025 Global AI Jobs Barometer da PwC conclui que a IA está associada a aumentos de produtividade e prémios salariais significativos para trabalhadores com competências relevantes, sinal claro de que quem domina IA tem vantagem competitiva no emprego e na carreira .Paralelamente, estudos especializados (como os da Randstad) estimam uma expansão significativa de empregos relacionados com IA em Portugal ao longo da próxima década, ainda que também identifiquem desafios de requalificação e adaptação dos trabalhadores .
Perante este cenário, a questão que se impõe não é se as universidades devem adaptar‑se, mas com que rapidez estão dispostas a fazê‑lo. Manter os métodos de ensino ancorados no passado é danoso. Um país que não forma profissionais preparados para tecnologia de ponta torna‑se menos atrativo, menos inovador, menos produtivo é como competir numa corrida de F1 com um triciclo. Empresas vão para onde o talento e a inovação prosperam; Portugal fica à margem, a ver outros países recolherem os frutos que ele poderia ter cultivado.
O fenómeno é mais visível fora dos grandes centros urbanos. Regiões como o Algarve possuem instituições, capital humano e qualidade de vida para se tornarem polos de conhecimento. Mas sem formação adequada, continuam a produzir jovens que migram para mercados mais sofisticados.
O ensino superior português tem reputação científica e formou gerações brilhantes. Mas essa reputação exige liderança, não simples sobrevivência. Atualizar planos de estudos não é abdicar do rigor; é cumprir a missão de preparar estudantes para contextos em mudança. Países resilientes antecipam; Portugal, por vezes, parece apenas reagir atrasado, como quem acorda de um sonho longo quando o comboio do futuro já desapareceu do horizonte.
Portugal dispõe hoje de estratégias nacionais, financiamento europeu e capacidade científica. O desafio já não é traçar o rumo, esse está amplamente traçado, mas garantir que as instituições avançam com determinação e velocidade. Persistir em modelos de ensino desajustados é uma escolha deliberada de imobilidade, uma decisão que pesa em crescimento perdido, investimento adiado e talento que se vai embora.
A economia do futuro está a ser construída agora. A questão que permanece é simples, embora dura: queremos remar no barco da inovação ou ficar na praia, a aplaudir quem já navega para o futuro, enquanto o nosso é levado pela maré?
Alexandre Graça

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